Evento reuniu alunos, artistas locais e Mestres da Cultura
do Acre em uma grande celebração da oralidade, da memória e das artes cênicas
No dia 30 de setembro de 2023, o Quintais Literários
promoveu um encontro memorável no Bairro Pantanal, Rua Petrônio Rodrigues, nº
574, em Xapuri (AC). O espaço, transformado simbolicamente em um grande quintal
cultural, recebeu a apresentação final do Curso de Teatro e Contação de
Histórias – 40 horas, idealizado e dirigido pelo artista e educador cultural
Clenes Guerreiro.
O curso foi realizado entre 1º de junho e 30 de setembro de
2023, nos quintais do município, com o objetivo de fortalecer o desenvolvimento
artístico, expressivo e criativo dos participantes, estimulando o contato
direto com técnicas teatrais e práticas de contação de histórias, além da
valorização da cultura, da oralidade e da expressão corporal e vocal.
Durante quatro meses, os participantes vivenciaram práticas
de jogos teatrais, expressão corporal, técnicas vocais, improvisação,
construção de personagens, narrativa oral, adaptação de textos literários para
a cena e práticas coletivas de encenação, culminando em uma apresentação
pública que sintetizou todo o processo formativo.
Um quintal que virou palco, sala de aula e espaço de
encontro
A apresentação final foi marcada por uma atmosfera
acolhedora e vibrante. Em um quintal aberto à comunidade, o público pôde
circular, interagir e sentir-se parte do espetáculo. Crianças, jovens, adultos
e idosos compartilharam o mesmo espaço, criando uma experiência horizontal,
afetiva e democrática.
O evento reuniu apresentações teatrais, contação de
histórias, repentes, leituras compartilhadas, declamações de poemas, música e
dança, revelando não apenas as técnicas desenvolvidas ao longo do curso, mas
também os talentos que os alunos já traziam em sua bagagem de vida. O curso foi
voltado especialmente para pessoas com inclinação artística, potencializando
vocações já existentes.
Segundo o coordenador do projeto, Clenes Guerreiro, a
proposta dos Quintais Literários é justamente transformar espaços cotidianos em
territórios de criação e pertencimento:
“O quintal é um lugar de memória, de escuta e de partilha.
Quando levamos o teatro e a palavra para esse espaço, resgatamos uma forma
ancestral de convivência e transmissão de saberes. O que vimos hoje foi o
florescimento de talentos que só precisavam de oportunidade, estímulo e afeto.”
Alunos que brilharam no palco da diversidade
Entre os alunos que se destacaram nas apresentações estão:
Amanda Crys Oliveira; Amon Há Kirshnan; Dhemerson Ribeiro;
Diego Gomes; Fabilisson Campo; Hanna Maria Araújo de Souza; Jonildo Moura;
Lucas Willarson; Luciano Gomes de Macedo; Marcelo Furtado da Silva; Raelisson
Pinto Nogueira; Ingrid Braga Amorim; Terry Witter; Teófilo Brasil; Everaldo
Pereira da Silva; Quenede Braga de Amorim; Dyogo Henrich Alve; Clemilsa Alves;
Natany Vitória Alves; Cleilson Alves; Silvério Neto; Marcelo Souza; Evelly
Maria; Cairon Nascimento; Rodrigo Garcia; Fabrícia Lima; Hanfrey Amorim; Rudy
Seringueiro; Wenderson Nonato.
Cada participante apresentou fragmentos de sua identidade
artística: narrativas autorais, performances corporais, cenas improvisadas,
poesias faladas e músicas que dialogavam com a cultura amazônica, com o
cotidiano ribeirinho, com a memória popular e com questões contemporâneas.
Para a aluna Amanda Crys Oliveira, a experiência foi
transformadora:
“Eu sempre gostei de contar histórias, mas nunca tinha tido
contato com técnicas de voz, corpo e construção de personagem. O curso me deu
mais segurança, me ajudou a entender meu próprio potencial e a respeitar o
tempo do outro em cena.”
Já Lucas Willarson, que participou de cenas coletivas,
destacou o trabalho em grupo:
“A gente aprendeu que o teatro não é só sobre aparecer, mas
sobre escutar, apoiar e construir junto. O quintal virou nossa casa artística.”
Mestres da Cultura abrilhantam o encontro
Um dos momentos mais emocionantes do evento foi a
participação dos Mestres da Cultura do Acre, que compartilharam saberes
tradicionais, depoimentos e demonstrações práticas:
Maria de Lurdes Alves da Silva (Dona Boneca) – danças
tradicionais amazônicas e teatro;
Maria das Neves Alves da Silva (Dona Neves) – jogos e brincadeiras
regionais, teatro, benzimentos, rezas e medicina tradicional;
Evandro Pereira da Silva (Dico Barão) – jogos tradicionais,
música, repente e artes do brincar;
Maria Jovana Silva dos Santos (Jovana dos Santos) – danças
regionais, jogos tradicionais, teatro, benzimentos e medicamentos naturais amazônicos.
Os mestres reforçaram a importância da preservação da
cultura oral e da transmissão intergeracional dos saberes. Em seu depoimento,
Dona Neves emocionou o público ao afirmar:
“Quando a juventude aprende a brincar, a cantar, a contar
história, ela aprende também a respeitar a memória dos mais velhos. Isso mantém
nossa cultura viva.”
Dico Barão ressaltou o valor do lúdico como ferramenta
educativa:
“Brincar também é aprender. O repente, o jogo, a música
ensinam disciplina, escuta e criatividade.”
Formação artística com impacto social e cultural
Além da dimensão estética, o curso teve forte impacto
social. Ao ocupar quintais como espaços culturais, o projeto rompe barreiras de
acesso, aproxima a arte da comunidade e fortalece vínculos entre moradores,
artistas e educadores.
A formação enfatizou a autonomia criativa, a valorização da
identidade local e o protagonismo dos participantes, que puderam experimentar
diferentes linguagens e formatos de apresentação.
A declaração oficial do Grupo Quintais Literários destaca
que os participantes demonstraram assiduidade, envolvimento, sensibilidade
artística e evolução técnica ao longo do processo formativo.
Um encerramento que aponta para novos começos
A apresentação final não representou apenas o encerramento
de um curso, mas o fortalecimento de uma rede cultural ativa em Xapuri. O
encontro reafirmou o papel dos quintais como territórios simbólicos de criação,
memória, resistência cultural e convivência comunitária.
Ao final da tarde, entre aplausos, abraços e rodas de
conversa, ficou a certeza de que novas histórias, espetáculos e encontros
continuarão florescendo nos quintais da cidade — mantendo viva a arte de
contar, representar, cantar e compartilhar.
Arte: Divulgação/Grupo Quintais Literários
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