domingo, 23 de agosto de 2009

História Multimídia de Xapuri: O Projeto chega ao fim

'Tudo que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível' – já dizia o poeta. E é com esse pensamento que, com tamanho lamento em nossos corações nos despedimos do projeto História Multimídia de Xapuri.

Nesse tempo em que a pesquisa foi realizada e seu material disponibilizado na rede através do blog, resgatamos a história de Princesinha do Acre.

Recordamos que a beleza dos recursos naturais de Xapuri se mistura a grandiosidade dos fatos históricos ocorridos na região. A Floresta, os rios e igarapés, fazem parte da história dessa terra, revoluções, empates, disputas pela terra, pelo espaço para produzir e sobreviver, terra de conquistas, de sonhos realizados, e muitos por realizar. Terra de bichos, de lendas, histórias de sobrevivência, de fome, de luta, de miséria, riqueza, e muitos “causos” de assombrar.

A trajetória de vida dos xapurienses, da luta pela terra, da emancipação e dos valores culturais enraizados na alma, constitui uma sociedade diferente. Esse espaço conquistado é, por si só, cheio de características peculiares. Um território com memória, diversidade cultural e integridade ambiental, visto que contempla em seu território, uma quase totalidade de área de floresta.
É terra de seringueiros, ribeirinhos, regatões, guerreiros, heróis – é terra de Revolução, de Chico Mendes e de muitas outras histórias para contar.

Mas, como nem tudo são flores, o nosso projeto, que foi aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Acre em 2008, não foi aprovado esse ano, nos deixando impossibilitados de continuar com a pesquisa.

Para finalizar o projeto iremos disponibilizar o material pesquisado, com fotografias, em DVD-Rom e distribuir às escolas da rede urbana do município e entidades voltadas para o lado histórico-cultural.

Temos interesse em continuar com a pesquisa, portanto, se vocês que está lendo essa postagem se interessar, ou conhecer interessados, favor entrar em contato através de comentário – podemos disponibilizar o projeto atualizado.

E, com um aperto forte no peito, nos despedimos agradecendo a você, leitor, que sempre esteve conosco, lendo, comentando, apresentando críticas, elogios, sugestões. Agradecemos também aos colaboradores – entrevistados, fotógrafos, amigos que emprestaram material bibliográfico, fotográfico, que nos cederam um pouco de seu valioso tempo para deixar viva (e imortalizada) a história da nossa querida Xapuri, a Princesinha do Acre!
Muito, muito obrigado!

Equipe do Projeto História Multimídia de Xapuri:
*Rivangela Nogueira

*Caticilene Rodrigues
*Clenes Alves


Ilustração:
*Arte Guerreira - Banner História Multimídia de Xapuri - Arte-montagem de Clenes Alves

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A Equipe do História Multimídia de Xapuri

Resgatar a história de Xapuri, por meio de muita pesquisa, trabalho de campo e muito suor, não se constitui tarefa fácil é sinônimo de prazer, reflexo de qualidade. Pelo menos é isso que acredita o leitor do blog do Projeto História Multimídia de Xapuri.

Desde março de 2009 foram contabilizadas 14.500 visitas ao endereço eletrônico, consequência da variedade de histórias que a formosa Princesinha do Acre tem para contar.

Como essa história não pode nem deve ficar perdida no imaginário das pessoas – que porventura são mortais, correndo o risco de perder na imensidão do tempo que não para – foi idealizado tal projeto que só trouxe alegrias.

Mas, tanto sucesso se deve a uma equipe de 'peso' que esteve unida e trabalhando incessantemente durante todo o processo de pesquisa e disponibilização digital de tão importante história.

A equipe de peso é composta pela proponente do Projeto, Rivangela dos Santos Nogueira, formada em licenciatura plena em História Pela Universidade Federal do Acre, hoje atuando como policial civil do Estado do Acre; os trabalhos de pesquisa, coordenação e disponibilização contou com dois executadores:
Caticilene Rodrigues, formada no Curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Acre, atuando como Gestora de Políticas Públicas, coordenadora do Museu do Xapury;
e Clenes Alves, acadêmico dos Cursos de Ciências Econômicas da UFAC e Teatro da UAB/UnB, ator dos Grupos de Teatro Poronga e Arte na Ruína e contador do Grupo Fuxico de Contadores de Histórias de Xapuri, atuando também como guia de exposição/estagiário do Museu do Xapury.

E é justamente essa equipe de 'peso' que vem agradecer as contantes visitas e os calorosos comentários.
Xapuri merece e certamente agradece!

Fotos:
*1 - Banner com Rivângela, Caticilene, Clenes;
* 2 - Foto de Rivângela em seu momento família - acervo pessoal;
*3 - Foto de Caticilene Rodrigues - Por Gutierri Ferreira;
*4 - Foto de Clenes Alves - Por Fábio Ferreira.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Grupo de Teatro Poronga

Poronga é uma coroa feita de lata – geralmente de óleo de cozinha – com uma lamparina na parte da frente que é utilizada pelo seringueiro, em sua cabeça, para trabalhar cortando seringa nas madrugadas da escura floresta.
Mas Poronga também é o nome dado ao Grupo de Teatro que comemorou no último domingo, dia 09 de agosto, dez anos de existência em Xapuri.
O Grupo de Teatro Poronga de Xapuri, embasado nos ideais de Chico Mendes e crente na capacidade criativa e revolucionária dos jovens xapurienses, vem desenvolvendo nesse período um trabalho dentro das artes cênicas e com visão assistencialista contemporânea, através de realização de oficinas teatrais e espetáculos a crianças, adolescentes e jovens carentes do município de Xapuri.
Desde que surgiu já beneficiou milhares de crianças, jovens e adultos com diversas oficinas que tem o objetivo de capacitar para a área artística – teatral, circense, artes plásticas, etc. - além de evitar que essas pessoas sigam “os maus caminhos”, tendo em vista que além de ocupar o tempo ocioso e trabalhar a parte artístico-intelectual, ainda são implementados assuntos relevantes na vida em sociedade: prevenção às drogas e as DSTs, meio ambiente, violência, ética, cidadania, formação de grupo, convivência em grupo, etc.
Os espetáculos são montados de acordo com a demanda de jovens no grupo e são de autores e temáticas diversas – autores locais, nacionais e internacionais, encontrados no banco de textos do Grupo.
Os espetáculos são encenados em escolas públicas das redes estadual e municipal, bairros periféricos, associação de moradores, eventos e programações diversas, no próprio município, nas cidades vizinhas, e até mesmo em outros países: Bolívia e Peru.
Em 2007, cansados de tanta falta de apoio e diversas barreiras que eram impostas para impedir que sua arte continuasse, o Grupo se juntou com artistas plásticos, músicos, dançarinos, djs, sonoplastas, maquiadores, pirofagistas, entre outros artistas, e formaram o Grupo “Arte na Ruína” - onde há menos de 100m da casa de Chico Mendes, em uma delegacia abandonada e em ruínas, tendo como teto as estrelas, encenaram diversas vezes o espetáculo “O ensaio Surreal do Grito Sufocado”, onde expuseram seus problemas, seu pedido de socorro, através da linguagem mágica da arte.
O movimento de jovens artistas deu tão certo que no ano seguinte gravaram o documentário, curta-metragem, pelo projeto Revelando os Brasis!, intitulado “Arte na Ruína”, levando sua luta cada vez para mais longe – ainda inspirados nos ideais de Chico Mendes.
Ao longo dos anos, o Grupo já participou de Festivais e Mostras (inclusive ganhando em uma mostra brasileense de teatro os prêmios de melhor atriz coadjuvante, melhor direção, melhor figurino), além de apresentar em diversas cidades (dentro e fora do Brasil).
Além do típico coquetel comemorativo da década teatral, os atores fizeram uma tocante homenagem à atriz Dallyanna Lima, falecida em 2003, um dos pilares do movimento teatral de Xapuri, emocionando às pessoas presentes com a leitura do trecho do seu livro (trabalho de escola) 'Páginas da minha vida', em que falava sobre seus amigos, o teatro e sua gravidez.
O Grupo Poronga conta hoje com 10 pessoas – contando com a direção de um dos formadores do Grupo, Amarildo Ferreira – e continua realizando oficinas diversas, esperando apoios para continuar com seu belo trabalho - feitos marcantes da história cultural da Princesinha do Acre.



Fotos:

*1 -Apresentação de pirofagia - Pré-espetáculo "O Ensaio Surreal do Grito Sufocado" - Expoacre 2008 - Acervo Grupo Poronga;

*2 - Formação inicial do Grupo em 1999 - Na Bolívia - Acervo Grupo Poronga;

*3 - Banner do espetáculo "Se ela dança eu danço" - Acervo Grupo Poronga;

*4 - Apresentação do "Se ela dança eu danço" no Museu Casa Branca (Dallyanna Lima é a grávida da foto)- Acervo Grupo Poronga;

*5 - Gravação do Documentário "Arte na Ruína" - Acervo Arte na Ruína.

sábado, 8 de agosto de 2009

Chico Mendes

Nascido no dia 15 de dezembro de 1944, recebeu o nome do seu pai: Francisco Alves Mendes Filho, mas como todo menino chamado Francisco, desde cedo virou Chico. Cresceu no Seringal Porto Rico, em Xapuri, e com dez anos de idade já cortava seringa sozinho para ajudar na produção de seu pai. Logo quis aprender mais coisas e com a ajuda de um amigo que morava perto de sua casa aprendeu a ler e escrever.

Chico começou então a ajudar seu povo. Fazia reuniões, explicava a realidade das coisas e tentava organizar os homens e mulheres da floresta para acabar com a exploração dos patrões. Foi ameaçado e perseguido por isso. Pela primeira vez, Chico soube o que era sentir medo. Mas sua missão era ainda maior. Era preciso resistir contra o desmatamento e a transformação da floresta em pasto.

Foi quando surgiu o primeiro Sindicato de Trabalhadores Rurais do Acre. Logo a ideia se espalhou e outros sindicatos surgiram. A igreja se juntou à luta dos seringueiros e, nas cidades, muitos começaram a perceber que um drama se desenrolava nas matas acreanas. Chico foi preso e torturado, Wilson Pinheiro foi assassinado, Ivair Higino e outros seringueiros também tombaram sob a sanha dos pistoleiros.

Os índios e ribeirinhos se uniram aos seringueiros, dando origem à Aliança dos Povos da Floresta, e liderados por Chico Mendes fizeram ecoar no mundo que a floresta era sua causa e isso ninguém podia lhes tirar.

Mas seus inimigos eram muitos e poderosos.

E assim, ao entardecer do dia 22 de dezembro de 1988, Chico foi baleado e morto na porta dos fundos de sua casa... e os povos da floresta choraram.

Mataram Chico, o homem, mas não conseguiram matar seu espírito e sua luta.

Os inimigos de Chico foram derrotados por sua morte. As idéias que Chico defendeu impregnaram os corações dos homens de bem deste mundo e sua voz se fez ainda mais forte.
Hoje são muitos Chicos lutando e seu espírito guia os povos da floresta e nos lembra sempre que a floresta é nossa casa, nossa vida e nossa mãe e assim será para sempre.

Fontes de referência:
* Museu do Xapury;

Fotos:
*1 - Chico Mendes em um momento de descontração - acervo familiar;
*2 - Chico Mendes em uma de suas viagens - acervo familiar;
*3 - Chico Mendes e sua filha Elenira - acervo familiar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

As Reservas Extrativistas

As Reservas Extrativistas e a criação das cooperativas foram as primeiras conquistas dos seringueiros. As conquistas são frutos desta luta, desse movimento organizado pelo Conselho Nacional de Seringueiros e pela consciência do pequeno seringueiro, em busca de melhores condições de vida e pela divulgação ao mundo inteiro, de suas lutas em defesa da Amazônia e dos povos da floresta.

A história das experiências sociais vividas pelos povos da floresta, no progresso dinâmico e dialético, mostra que os conflitos existentes historicamente entre em Xapuri, entre os seringalistas, seringueiros e fazendeiros, não são apenas um problema regional, são frutos de um projeto político muito desenvolvido pelo governo Militar na década de 60, que junto com o capital internacional objetivava transformar a Amazônia em uma grande fazenda efetivada a partir de implantação de empresas agropecuárias, desativando os seringais e divulgando no sul do país e no estrangeiro as riquezas existentes na Amazônia, atraindo desta forma, grandes investidores estrangeiros e brasileiros, proporcionando os conflitos pela posse da terra. De um lado, os seringueiros defendendo os seus meios de sobrevivência, como a terra e a floresta, do outro os fazendeiros desenvolvendo uma política predatória na Amazônia, de atendimento aos seus interesses, apoiados e financiados, muitas vezes, pelo próprio Estado, ocorrendo assim, a destruição da floresta e expulsão do seringueiros de suas localidades.

Intensificava-se na Amazônia o aumento acelerado de desmatamento da floresta, conseqüência da política governamental em nome do "progresso" abrindo as portas da Amazônia para os capitalistas estrangeiros e brasileiros.

Mas, a diminuição dos desmatamentos só foi possível graças às lutas travadas em defesa da floresta e da vida, pelos trabalhadores rurais do Acre lideradas por pessoas sérias e comprometidas com os interesses do seu povo e de sua classe.

Foi a partir dessa consciência, acarretada pelo aumento da miséria, violência e falta de oportunidade, nos seringais e colônias, que os trabalhadores rurais (boa parte já sindicalizados) começaram a reivindicar, através dos empates, Sindicatos, Partidos Políticos, os seus direitos, fortalecendo, desta forma, o combate a esta política que, em nome do "desenvolvimento", matavam e expulsava os colonos e seringueiros de suas terras.

E, foi com o reconhecimento nacional e internacional das formas de resistências dos seringueiros, do seu modo de vida, que intensificou-se ainda mais a fúria daqueles que tentavam silenciar o movimento, culminando com o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, no dia 22 de dezembro de 1988, a mando daqueles que pensavam: matando Chico Mendes, o movimento organizado no Acre acabaria.

Enganaram-se, a realidade social carrega consigo a essência contraditória das manifestações humanas. E a história nos mostra que a ânsia da liberdade, da justiça e da felicidade, é abordada nos diferentes aspectos de resistências dos seringueiros, fazendo valer suas propostas e objetivos, reivindicando, uma sociedade mais justa e igualitária.

Para esses combatentes, as lutas em defesa da floresta, significam também, a defesa da vida, não só do homem, mas, também dos outros animais que, para sobreviver necessitam da floresta viva, evidenciada de forma clara e coerente na proposta política dos seringueiros para a Amazônia.


Fonte Pesquisada:

*Dossiê Trabalhadores de Xapuri - Xapurys 2 - Alunos do Curso de História da UFAC em Xapuri - 1996;

Fotos:

*Foto 1 - RESEX - Seringal Floresta, Colocação Rio Branco - de Talita Oliveira;

*Croqui - Colocações da RESEX - de Miro Ribeiro Pereira e Mª Lourdes Ribeiro Pereira;

* Foto 2 - 'Louça suja com vista limpa da RESEX' - Colocação Boa Sorte - de Talita Oliveira.