quarta-feira, 29 de julho de 2009

Os Regatões

Uma das figuras famosas ao se falar na vida dos seringais da Amazônia eram os regatões. Provenientes do oriente próximo chegaram a fluxo intenso ao Brasil, entre 1870 e 1913. Hábeis vendedores, eles se dedicaram ao comércio ambulante em várias regiões do País, especialmente na Amazônia, ficando conhecidos como regatões, ou seja, ambulantes que vendiam de tudo nos “barrancos dos rios”, através de embarcações entulhadas de mercadorias.

O motivo de atração destes homens para a Amazônia foi, sem sombra de dúvidas, a riqueza propiciada pela atividade gumífera nesses distantes locais.

Os regatões perambulavam pelos rios e varadouros cumprindo aquela máxima de que quem não estivesse pelado era freguês. Ameaçavam, assim, o poderio dos seringalistas. Por isso, os regatões eram mal vistos pela elite da sociedade extrativista, e sofriam com a marginalização e os preconceitos daí decorrentes.

Externo ao seringal, mas nunca distante dele, o regatão era um verdadeiro transgressor às ordens oriundas do patrão-seringalista. Um verdadeiro mascate das águas que dependia da compra de seus produtos pelos seringueiros, por mais que estes não servissem para absolutamente nada. O convencimento era feito da seguinte forma: iniciavam suas transações com um gole de cachaça e, com ela, prosseguiam até confundir a mente do infeliz caboclo, sempre se deixando negociar.

Muitos seringueiros viam, na figura do regatão, uma ilusão de falta de dependência, porque acostumados a prejuízos, o regatão representava a tábua de salvação em sua situação de servo da gleba selvagem e do sistema que o envolvia, pois ao menos conseguia, com isso, satisfazer algumas necessidades e vaidades que lhe davam a ilusão de homem livre para realizar negócios com quem melhor lhe conviesse.

A repulsa ao patrão seringalista fazia com que muitos seringueiros desviassem as suas mercadorias para as mãos dos regatões, que tiravam lucro desta situação. As transações eram feitas em forma de escambo, na qual a borracha era trocada por produtos.

Alguns destes “mascates das águas” tornaram-se comerciantes famosos e montaram casas comerciais nas vilas que se tornaram, posteriormente, cidades. Passaram a abastecer também os seringais com os mais variados produtos. Dito de outra forma, “aviaram” os seringais, fornecendo a estas unidades, mercadorias a crédito.

Em Xapuri, a vinda de sírios e libaneses se dava a partir de informações de que um ou outro parente residia na cidade. Desta feita, a procura pelo parente e, também pelo enriquecimento fácil, era meta daqueles que vinham de outros recantos. Alguns voltaram para a terra de origem, e outros, por sua vez, acabaram sendo abraçados pela formosa Princesinha do Acre.
Fotos:
*1 - Regatão, o mascate da Amazônia - final da década de 1960 - de Carlos Henrique Brek;
*2 - Ilustração 'Mascate da Amazônia' - autor desconhecido.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Antônio Zaine: O Sonhador de Xapuri

Antônio Assad Zaine, nascido em Corumbataí, interior de São Paulo, comerciante, chegou ao Acre em 09 de Julho de 1954 para trabalhar com Jorge Kalume, político do Acre. Casado com Dona Déia Maria Gomes Zaine, pai de César Gomes Zaine, político de Xapuri e Terezinha de Jesus Gomes Zaine, diretora de escola pública.

Ele chegou em um DC-3, aeronave da então companhia aérea Cruzeiro do Sul. Até hoje toma de conta da firma e do prédio onde funcionou a gigante empresa dos Kalumes, que comprava borracha para a praça de Belém.

Com mais de 80 anos, seu Zaine ainda hoje tem um sonho: o de transformar o que resta da antiga firma em Xapuri em um museu com as características das empresas de antigamente, expondo alguns produtos e um pouco da história antiga do Acre.

Há homens que nunca deixam de ser criança e estes, são assim, porque nunca abandonam seus sonhos, suas crenças, suas alegrias, seus amigos, sua família e suas aspirações mais nobres. Esses homens são necessários para a revolução da própria sociedade em que vivem e em que labutam – assim é o sonhador Antônio Zaine, pois ele chegou por aqui como um lutador e continua lutando até hoje, mas hoje sua luta, sua lida é para não perder o ontem e garantir que o passado não se perca na ambição do futuro.

“O meu grande sonho é dar continuidade ao passado, principalmente o passado histórico e glorioso de Xapuri” (Antônio Zaine).


Fonte Pesquisada:
*Brava Gente Acreana – Vol I.




Foto:
*De Sérgio Cardoso.

domingo, 19 de julho de 2009

Dona Júlia Gonçalves Passarinho: Banda de Música de Xapuri

A Banda de Música do município de Xapuri – Berço da Revolução Acreana – homenageia a maranhense Senhora “Júlia Gonçalves Passarinho” genitora do famoso político Jarbas Gonçalves Passarinho, do Estado do Pará.
De conformidade com o Decreto Municipal baixado pelo prefeito Edson Dias Dantas, de número 140, de 20 de março de 1973, vê-se que as considerações feitas são alusivas ao prestativo cumprimento de exigências, que é prática quando se quer homenagear um cidadão Xapuriense publicamente. A segunda consideração, nota-se que realmente foi Jarbas Gonçalves Passarinho, quando ministro do Estado da Educação e Cultura, no governo Emílio Médici – 1969/74, que fez doar vários instrumentos musicais.
A esse adendo do legislativo municipal acresce-se o Projeto de Lei n-05/73 (que dispõe sobre a criação da Banda e dá outras providências) datado de 17 de março e Lei municipal n-75, de 4 dias após (que cria a Banda de Música do Município de Xapuri e dá outras providências).

Esses foram os primeiros componentes da Banda recém-criada na forma de Lei:
Maestro-Regente: Ruy Francisco de Melo - in memorian
Músicos: José Peres de Souza
Oneide Tomé de Oliveira - in memorian
João Marcelino da Silva
Orlandino Ferreira Lima
José Gomes Pereira
José Ferreira Nunes
Antônio Cosmo da Rocha
Belarmino Coelho da Cunha
Francisco Coelho da Cruz – in memorian
Pedro Ferreira Nunes
Bartolomeu Bispo dos Santos
Ernesto Bispo dos Santos
Raimundo Nonato de Araújo
José Almerindo de Souza - in memorian
Segundo José Peres de Souza, os primeiros ensaios da “Banda Dona Júlia” deu-se nas dependências da Casa Branca, um antigo prédio construído em alvenaria e madeira inaugurado para servir de hotel e restaurante em 20 de julho de 1909, de propriedade dos Senhores Pereira & Silva. Depois, os ensaios davam-se no Quartel da Polícia Militar e Lar dos Vicentinos e hoje na Casa Branca, novamente.

O atual quadro da Banda é composto por 18 músicos:
Maestro-Regente: José Peres de Souza – e toca clarineta
Contra Mestre:Aldecir Moreira de Oliveira – e toca clarineta
Músicos: Antônio Cosmo da Rocha – caixa
Mauro Martins – contra-baixo
Rener Azevedo – contra-baixo
Alderiza Sandas de Moraes – surdo
Judite Melo – prato
Cláudio Roque – trompete
José Ribamar – saxes tenor
Eliésio – saxes tenor
Édson Isidoro – bombardino
Belarmino Coelho da Cunha – bumbo
Raimundo Nonato de Araújo – bumbo
Marcus Vinícius Daniel de Souza – caixa
Orlandino Ferreira Lima – trombone
José Gomes Pereira – trompete
José Dias de Souza – sax alto
José Ferreira Nunes – bumbo

A banda ensaia três dias por semana – de segunda a quarta-feira – no período da manhã, estando o restante da semana à disposição para a realização de tocatas, retretas, eventos, conforme combinado desde a fundação da Banda, em 1973.
Inicialmente a Banda Dona Júlia realizava aproximadamente 77 tocatas ao ano e hoje realiza apenas de 20 a 30. Os músicos eram voluntários, passando a serem funcionários municipais a partir de 1975.

Fontes de referência:
*Dossiê: Trabalhadores de Xapuri - Xapurys 2 - Alunos do Curso de História da UFAC em Xapuri - 1996;
*Entrevista oral com Antônio Cosmo da Rocha (Magão) em 26/06/2009.


Fotos:
*1 - Banda D. Júlia - em Dezembro de 1983 - Foto gentilmente cedida por Antônio Cosmo da Rocha (Magão). Da esquerda para a direita: Maestro tenete Rui Francisco de Melo; Irauzino Bispo dos Santos; José Sobrinho de Souza; Elvídio de Oliveira; João Marcelino de Souza; Orlandino Ferreira Lima; José Almerindo de Souza; Ernestino Bispo dos Santos; Marcos Vinícius Daniel de Souza; Pedro Ferreira Lunus; José Gomes Pereira; Oneide Tomé de Oliveira; Bartholomeu Bispo dos Santos; José Dias de Souza; José Peres de Souza; Antônio Cosmo da Rocha (Magão); Belarmino Coelho da cunha; Raimundo Nonato de Araújo; Evanilde Tomé de Oliveira;
*2 - Banda D. Júlia - Fomação atual - foto de Caticilene Rodrigues.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A perda de um herói

A floresta teve uma perda
Morreu uma parte de si
A vida não é mais a mesma
Muito tempo depois
Que Chico se foi
Chico Mendes não foi morto
O mataram
O sangue que sai de seu peito
Derrama

Foi morto a sangue frio
E não resistiu
Sua vida foi tão rápida
Que pra xapuri o mundo olhou
Tivemos uma perda
Que ninguém explicou o que aconteceu
Chico Mendes morreu

Da floresta fez a sua casa
E protegeu com sua própria vida
Pensando na mãe mata
Com sua própria vida e
Ele a protegeu, mas mataram.
Mas mataram Chico
Chico Mendes morreu

Mas a sua luta continua
Dentro de cada um de nos
Vamos proteger a Amazônia
Por que é de todos nos.

Música/Letra:
*Álder Járede - que há um ano, aos 15 anos de idade, fez essa música em homenagem ao grande Chico Mendes.

Foto:
*Acervo família Mendes.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Empate

A cidade de Xapuri, foi respeitada por ter surgido em uma região considerada grande produtora de castanha e borracha. Está assentada em terras cobertas por uma imensa floresta onde existiam vários seringais nativos de grande produção.

Da época de 30 à meados dos anos 60, Xapuri era grande exportadora de borracha, castanha e pele de animais silvestres. Essa produção era realizada por seringueiros, homens que vivem embrenhados nas matas. Eles passavam praticamente todo o ano produzindo as pelas e coletando castanhas na época da safra para vender aos patrões. Assim, os seringueiros conseguiam sobreviver em suas Colocações. Alguns tiravam saldo "gordo" que vinham gastar na cidade, comprando roupas e outros acessórios para toda a família, e utensílios de casa, como também participavam dos forrós dançando noite a dentro.

Época esta em que Xapuri recebeu o nome de "Princesinha do Acre", levando este nome em virtude do progresso que reinava nesta terra durante o ciclo da borracha e da castanha.
Chega outra realidade para esse povo que, embora trabalhando ardentemente, era feliz. É que na década de 70, houve uma propaganda ferrenha no sul do País, onde se dizia que: "O Acre é o nordeste sem seca e o sul sem geada".

Com isso, grandes fazendeiros e outros sulistas resolveram investir em nossa região, simplesmente com o único objetivo de transformar nossa floresta em campos de pastagens, para a criação de gado-de-corte.

Os seringalistas iniciam a venda de suas áreas aos fazendeiros sulistas, onde, em pouco tempo, perderam o nome de seringais e passaram a ser chamados de “fazendas”.

Iniciam-se as transformações das matas em campos. São adquiridas autorizações dos órgãos competentes para as derrubadas. Nesse processo, as castanheiras, seringueiras e outras valiosíssimas árvores, como também algumas espécies de animais e vegetais, são destruídas pelas derrubadas e queimadas.

Constitui-se, desta forma, as expulsões dos seringueiros e posseiros que habitavam as regiões afetadas pelas derrubadas violentas, quando fazendeiros agiam de forma a matar alguém das famílias, queimando as casas e, algumas vezes, pagando insignificantes indenizações. Atos de violência, ameaças e atentados.

Daí a necessidade de mostrar as formas de resistência desses trabalhadores da floresta contra a destruição do seu meio de sobrevivência.

O empate foi fruto de uma necessidade, e, foi a partir dessa necessidade que levou os seringueiros a se juntar em grupo e partir para fazer aquilo que se chama de empate e essa necessidade foi devido a destruição que a floresta vinha tendo. Empate significa manter a floresta em pé.

O empate é um movimento organizado pelos próprios seringueiros, para impedir a destruição, tanto da fauna como da flora, que são meios de sobrevivência desses homens. O empate é uma forma de impedir que sejam expulsos de suas terras.

Quando se fala em movimentos organizados por seringueiros, refere-se a homens, mulheres e crianças. As mulheres, ora participavam à frente dos empates, ora participavam preparando a alimentação para os seus companheiros. O papel da mulher e das crianças no empate é muito importante. É um meio de estratégia que o seringueiro, através do movimento, resolveu fazer para evitar violência; então ia mulher com crianças no colo, velhas, mulheres novas, crianças que andavam já participava do empate para evitar violência.

Com base em sua experiência de empate, na resistência aos desmatamentos, os seringueiros propõem uma alternativa para a Amazônia e para si mesmos, para a sua sobrevivência: as reservas extrativistas. Trata-se de preservar a floresta, os rios, os animais, respeitar a natureza como espaço e parte da própria vida. Mas trata-se também, de desenvolver uma economia adaptada, não destrutiva, capaz de garantir a riqueza material dos povos da floresta.


Fonte Pesquisada:
* Dossiê: Trabalhadores de Xapuri – Xapurys 2 – Alunos do Curso de História da UFAC em Xapuri – 1996.


Fotos:

*1 - Entrada do Seringal Cachoeira - de Dhárcules Pinheiro;

*2 - Pôr do Sol - de Caticilene Rodrigues;

*3 - Gado de corte - de Caticilene Rodrigues.

sábado, 4 de julho de 2009

A caça nos seringais

A caça é uma das atividades humanas mais antigas que se tem conhecimento, sendo a principal forma de alimentação para as populações tradicionais que moram no interior da floresta de Xapuri.

É comum os seringueiros andarem armados durante seus afazeres, pois vez ou outra topam com alguma caça e já poupam o esforço da caçada futura, levando a carne para almoço ou janta. Aliás, é comum nas refeições de café da manhã, ser consumido a carne de caça, porque os seringueiros acordam muito cedo e passam muito tempo cortando seringa em suas estradas, que em média, tem cento e cinquenta madeiras.

Para a caça são desenvolvidas algumas estratégias, em Xapuri as mais utilizadas são: as esperas, caça com cachorro e caça de rastejo. É pouco comum a utilização de armadilhas para captura de animais, porém a mais comum é a preparação da sevada, que é uma espécie de mistura de alimentos, colocado dentro do rio ou igarapé para pegar mais peixes.

A espera sempre é montada perto das “comidas” dos animais, é armada de duas formas, a primeira através da rede, que é colocada no alto das árvores, e a outra é feita através do corte de três pequenas árvores, duas com folhinhas nas pontas e uma terceira reta. A duas com forquilhas são encostadas nas árvores mais próximas das comidas e a terceira é posta sobre as duas forquilhas, armando uma espécie de “poleiro”.

A caça com cachorro é uma forma bastante utilizada, os cães perseguem a caça e “acoam” o animas, deixando-os parados, devido ao medo, facilitando assim a perseguição. O regulamento atual da RESEX – Reserva Extrativista Chico Mendes – proíbe a caça com cão, pois são nocivos aos animais da floresta por afugentarem a caça. Quando realizada é desenvolvida durante o dia e geralmente no período de chuvas, onde as folhas estão molhadas não permitindo ao caçador perceber o barulho das pisadas dos animais nas folhas secas.

A caça de rastejo é uma das mais tradicionais, a estratégia é desenvolvida através de perseguição dos rastros, seja pelo cheiro, pegadas, barulhos ou galhos retorcidos.

Muitos caçadores utilizam outras formas de preparação, como chás, que intensificam os sentidos e afastam a “panema”, banho com ervas, que impedem o cheiro comum do corpo humano, além de algumas superstições.

Outro fator importante é o conhecimento dos horários e as estações do ano que são aptas para a caçada, além do conhecimento das fases “boas” da lua – coisas importantes para garantir a boa alimentação do morador das florestas xapurienses.


Fotos:

*1 - Caça tipo "espera" - de Dhárcules Pinheiro;

*2 - Caça com cachorro - Ilustração - Autor desconhecido.