segunda-feira, 29 de junho de 2009

Roçados

Depois da queda da borracha os seringueiros que continuaram na floresta passaram a abrir áreas para cultivo de culturas de subsistência. Os roçados e as roças são geralmente de tamanho pequeno de uma a cinco tarefas, às vezes podem chegar a dois ou mais hectares. São feitos geralmente perto das casas, mas alguns podem ficar distantes até duas horas de caminhada na mata.

As populações tradicionais de Xapuri, assim como colonos e ribeirinhos tem um calendário de atividades que segue os ciclos das águas.

No início do verão, brocam as matas, depois derrubam ou limpam as capoeiras existentes. No auge do verão, em agosto e setembro, queimam e preparam o solo para o plantio que se dá no início das chuvas. Durante o resto do ano se dividem nas atividades extrativistas, a coleta de castanha no inverno, e a coleta de látex no verão, assim como às outras atividades, como o trato do roçado e também da criação, como relatam os seringueiros da Princesinha, que brocam uma determinada área de sua colocação para colocar o roçado e só depois de seis anos essa área é brocada de novo.

Nos roçados tem de tudo um pouco, plantam feijão, arroz, macaxeira, banana, milho, cana, e hortaliças. Antigamente descascavam o arroz usando o pilão, mas hoje em dia usam a peladeira. Da macaxeira fazem farinha, alguns produzem só para consumo, mas outros costumam vender. Alguns fazem rapadura da cana. Alguns vendem o excedente da produção, outros só plantam para a alimentação.

Os roçados representam uma nova fonte de sobrevivência para os seringueiros que tiveram surrupiado seu sonho de melhores dias advindos do Ouro Negro da famosa Princesinha do Acre.


Fotos:

*1 - Feijão - Sítio 'iapar.br';

*2 - Milho - Cildo Aquino;

*3 - Roçado de Milho - Cildo Aquino;

*4 - Roçado de arroz - Sítio 'iapar.br'.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Festa no Seringal Cachoeira



Mês de Junho é significado de festas típicas em diversos lugares brasileiros e, evidentemente, na cidade de Xapuri não poderia ser diferente. Com muita música, danças e bebidas típicas o povo guerreiro da Princesinha se diverte e encanta com sua peculiar cultura junina, regada ao toque da sanfona, triangulo, zabumba e o conhecido violão.

No festivo mês tudo é motivo para comemoração, e foi o que aconteceu no reencontro da família Monteiro de Oliveira no Seringal Cachoeira em Xapuri, no Acre, que há mais de 50 anos estava vivendo no Ceará, longe de parte de seus familiares que hoje residem na Princesinha do Acre - cujo paradeiro fora localizado graças à moderna internet.

Para comemorar, uma festa no Seringal Cachoeira, onde tocaram nomes famosos como Monteirinho, Miguel Mendes (primo de Chico Mendes), Dito e Carrilho, enquanto os pares - homem com mulher a até mulher com mulher, típico dos seringais - bailavam animadamente para registrar sua alegria, como em um rito surreal do povo seringueiro.


Música tocada: Xote Ecológico, de Luiz Gonzaga
Vídeo registrado por Gutierri Ferreira da Silva para o Projeto História Multimídia de Xapuri

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Dona Vicência

Dona Vicência Bezerra da Costa nasceu em Alto Santo, no interior do Ceará em 20 de fevereiro de 1929 e veio para o Acre em 1943. Viúva de Raimundo Girão da Costa, um cearense, cabra arretado de bom que chegou a tirar bons saldos na labuta das estradas de seringa. Mãe de Francisco, Getúlio, Maria de Lurdes e Maria das Graças. Quanto aos netos e bisnetos ela somente sabe que já passaram dos 40.

Dona Vicência, a experiente seringueira que montou o restaurante 'Tia Vicência' de comida caseira com sabor de seringal, em Xapuri, viveu quase 20 anos sem sair do seringal pois o marido, quando era preciso era quem ia fazer compras na cidade.

A mulher franzina e um pouco adoentada devido a idade avançada esconde a guerreira da borracha que passou anos e anos de sua vida pelas estradas de seringa, trabalhando com afinco tão grande e de dar inveja a muitos marmanjos.

Era seringueira na alma e no coração. Chegou mesmo a compor um hino aos soldados da borracha e a dar exemplo de que o seu trabalho era um esforço de guerra.

A guerreira Dona vicência, que aos 80 anos gostaria de ter saúde para voltar a mata e comer quati, anta, preguiça, porco-do-mato, veado, macaco prego e capelão, tudo sem couro e bem escaldado com um pouco de banha e com uma pimentinha para temperar.
A seringueira guerreira sabe também que a mata, apesar de seus segredos, é uma dádiva de Deus.

Fonte de pesquisa:
*Livro Brava Gente Acreana - Vol. I


Foto:
*Dona Vicência em frente a seu restaurante - de Caticilene Rodrigues

Vamos dar valor ao seringueiro,

Vamos dar valor a esta nação,

Porque com trabalho deste povo

É que se faz pneu de carro e pneu de avião.

Fizeram a chinelinha, fizeram o chinelão

Inventaram uma botina que a cobra não morde

Não

Tantas coisas da borracha eu não sei explicar não

Encontrei pedaço dela em panela de pressão.

Não é com chifre de vaca que se apaga a letra não

São produtos fabricados feitos pelas nossas mãos.


Autor: popular


Foto:

*Sr. Romildo Sales Campos Barbosa – de Thiago Nichele


quinta-feira, 4 de junho de 2009

O famoso leite da castanha

O tempero mais apreciado pelos seringueiros é o famoso leite da castanha, extraído da castanha, ainda cultivada nos seringais. É considerado como substituto do óleo nos temperos das carnes de caça, dando um sabor diferenciado a elas, que posteriormente, com a saída de algumas famílias seringueiras para a cidade, foi absorvida pela maioria dos xapurienses.

A extração do leite da castanha inicia-se com a coleta, depois vem a quebra do ouriço para retirar a castanha, descascar, lavar, ralar, acrescentar água e peneirar, no intuito de que fique um leite grosso.

O jabuti tornou-se um prato tradicional na culinária acreana, bastante degustado no passado, quando encontrava-se esse animal em maior quantidade dentro da mata. O famoso jabuti ao leite da castanha já deve ter sido degustado por todos. Quem não degustou, certamente, já deve ter ouvido falar da iguaria por alguns parentes, avós, tios ou amigos próximos.

Uma particularidade de alguns moradores é o gosto pelas carnes com osso ao leite da castanha.
Várias carnes são apreciadas com esse tempero, engana-se os que pensam que sejam somente as vermelhas. Os peixes, carne de tatu e outros também fazem parte dessa variada degustação das carnes dos animais oferecidos pela floresta.

O pão de milho, conhecido popularmente como cuscuz, ao leite da castanha, sendo os dois preparados na hora. Eram degustados pela manhã, no café, dos muitos filhos do seringueiro.

Também do leite da castanha pode se fazer o pirão, que normalmente é feito dos caldos das comidas cozidas.
Mas não para por aí, alguns xapurienses fazem também o mucunzá, a paçoca que é colocada na ossada de caça de veado, porco, jabuti e guariba – tornando o leite da castanha ingrediente de essencial importância na alimentação seringueira.

Fotos:
*1 - Catanhas - de Dhárcules Pinheiro;
*2 - O Preparo do leite da castanha; e guariba ao leite da castanha - de Dhárcules Pinheiro.